Nova aposta portuguesa
Localizada ao norte de Lisboa, a região da Estremadura começou a fazer vinhos cada vez melhores após investir na reestruturação dos vinhedos, redução da produtividade e modernização das adegas
Patrícia Ferraz
A história vinícola da Estremadura remonta aos fenícios, que teriam transportado videiras da Síria para a foz do Tejo
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Por muitos anos, a região da Estremadura, em Portugal, produziu vinhos em quantidade e aguardentes para abastecer outras zonas do país, em especial o Douro. Além disso, a área se firmou também como importante pólo de metalurgia vitivinícola, fabricando prensas, pulverizadores, caldeiras para destilação e diversos maquinários ligados à elaboração de brancos e tintos. Mas, no início dos anos 1990, com a entrada do país na Comunidade Européia e a unificação da legislação para o setor, a Estremadura passou a investir forte na qualificação de seus vinhos. A produtividade foi drasticamente reduzida e a extensão das vinhas cortada pela metade: de 60.000 hectares existentes em 1985, restaram 30.000 no ano 2000 (ainda assim, a área apresenta uma das maiores coberturas vegetais do país). Entre as outras medidas adotadas, a Enciclopédia dos Vinhos de Portugal - Vinhos da Estremadura (João Carvalho Ghira e Raul Empis Constâncio, Chaves Ferreira Publicações, 1990) destaca a seleção de castas, o aperfeiçoamento enológico e a modernização das adegas. Os novos procedimentos foram decisivos para o aprimoramento dos vinhos locais. Por enquanto, 80% deles ainda não são certificados. Entretanto, o panorama está mudando rapidamente, conferindo à região um perfil de produtora de grande quantidade, boa qualidade e bons preços.
A história vinícola da Estremadura remonta aos fenícios, que teriam transportado videiras da Síria para a foz do Tejo. Depois, os romanos emprestaram à região seu conhecimento de vinicultura. Porém, com a chegada dos árabes à Península Ibérica, a atividade foi interrompida e só pôde ser retomada depois da Reconquista. Durante a Idade Média, a presença de diversas ordens religiosas estimulou a elaboração de vinhos nos mosteiros, originalmente destinados à missa. A essa altura, os tintos da Estremadura fizeram fama. Mas, com o passar do tempo, a zona cultivou sua vocação destiladora, ocupando- se de fornecer a base para as aguardentes do Douro e exportando vinhos para as colônias, entre elas o Brasil.
Localizada na vizinhança da capital, Lisboa, a Estremadura faz fronteira com as regiões das Beiras, ao norte, Ribetejo, a oeste, e ao sul com as Terras do Sado. Caracteriza-se pela diversidade: abriga terras de aluvião e encostas calcárias, tem clima de transição e vegetação dividida entre a mediterrânea e a da Europa Central. O resultado é que dá origem a vinhos distintos em suas diversas áreas. A região se divide em nove Denominações de Origem, mas desde 1991 vigora ali também a classificação Vinho Regional da Estremadura, que designa brancos e tintos de mesa, produzidos em área específica, com o mínimo de 85% de castas autorizadas localmente.
A apenas 20 quilômetros ao norte de Lisboa encontra-se a Denominação de Origem Bucelas, celebrada pelos brancos produzidos com a casta Arinto. Ali, essa cepa resulta em vinhos de personalidade, com acidez, evidente frescor e aromas tropicais. A Esgana Cão (também chamada de Sercial) e a Rabo da Ovelha são outras castas bastante utilizadas. Essa zona foi demarcada em 1907 e hoje soma 200 hectares de vinhas distribuídas entre seis produtores, como a Quinta da Romeira, que tem 80 hectares de vinhedos e produz os brancos Prova Régia Bucelas Arinto e o Morgado de Sta Catherina Bucelas Arinto; e o tinto Pegos Claros Palmela, cheio de personalidade. Os três chegam ao Brasil importados pela Mistral, de São Paulo.
Outra Denominação de Origem que desfruta de grande prestígio é Alenquer, que se estende das encostas da Serra de Montejunto às margens do Tejo, distribuída por colinas e vales. Um trabalho cuidadoso de reestruturação dos vinhedos deu fama aos tintos dessa região tradicionalmente festejada pelos brancos, a partir da criação da D.O. em 1999. Das vinícolas que se destacam em Alenquer, a Quinta da Cortezia, que passou por renovação ampla da adega em 2004, faz brancos e tintos importados ao Brasil pela Casa Flora, de São Paulo. Seu Arinto sai como Vinho Regional da Estremadura. O tinto Vinha Conchas Special tem base em 55% de Touriga Nacional cortada com Tinta Roriz, Merlot e Alicante Bouchet. Tintos, brancos e rosados levam a assinatura do enólogo Miguel Reis Catarino, e a empresa está nas mãos da quinta geração da família.
Ainda na D.O. de Alenquer, a Quinta de Chocapalha tem tradição vinícola que remonta ao século XVI, mas foi replantada a partir de 1987, quando o ex-oficial da Marinha Tavares da Silva comprou as terras, localizadas a 50 quilômetros de Lisboa. Ele aproveitou as raízes da Castelão para enxertar Touriga Nacional. "A qualidade final é de uma vinha velha, com mais aromas", diz o proprietário, que divide a elaboração de vinhos com a filha agrônoma e master em enologia (e ex-top model), Sandra Tavares da Silva. Só começaram a fazer vinho ali no ano 2000, usando lagares (para Tinta Roriz, Touriga e Syrah) e cubas (para os demais), além de prensas antigas. Vinificam apenas 50% de sua produção. Seus tintos de classe são importados pela Mistral, o Quinta do Chocapalha, um monovarietal Cabernet Sauvignon, e o Chocapalha, corte de Touriga Nacional, Aragonez, Castelão e Alicante Bouchet.
Em Freixal de Cima, localiza-se outra jóia do Alenquer, a prestigiosa Quinta do Monte D'Oiro, vinícola do engenheiro José Bento dos Santos, um ativo gastrônomo e vinhateiro que faz questão de apresentar seus premiados vinhos em memorável harmonização com músicas. Na visita de Gula, os temas foram Syrah e Paganini, um espetáculo de paladar e som em que desfilaram o Vinha da Nora Reserva 2002, um Syrah de estilo europeu; o Seleção Syrah 2003, o Quinta do Monte D'Oiro Reserva 2003 e o Lybra 2004, 100% Syrah, um vinho fácil de beber e menos concentrado, feito sob medida para o público jovem. No Brasil, são distribuídos pela Mistral.
A área geográfica correspondente à Denominação de Origem Óbidos abrange os conselhos de Óbidos, Bombarral, Cadavel e Caldas da Rainha. Apesar da pouca tradição local em espumantes, é ali que se elaboram os bem-sucedidos Loridos Bruto e Loridos Branco de Brancas, importados pela Portus Cale, de São Paulo. São as duas jóias da Estremadura nas terras de Bombarral, onde o surpreendente comendador Joe Berardo, seu proprietário, está terminando a construção de um enorme jardim zen, com estátuas gigantescas importadas do Oriente e instaladas ao redor de um lago. O inusitado parque será aberto à visitação pública. Em Óbidos, também se situa a Quinta do Gradil, ex-propriedade do Marquês de Pombal, onde se produzem os vinhos regionais com as marcas Cortello, elaborado com a cepa Castelão e Berço do Infante, distribuídos pela Expand, de São Paulo, além do Quinta do Gradil, um corte de Touriga Nacional, Alicante Bouchet e Trincadeira. As outras Denominações de Origem da Estremadura são Arruda, Carcavelos, Colares, Lourinha, Torres Vedras e Encostas D'Aire. Todas elas passam por processo de modernização das adegas e reestruturação dos vinhedos. Não por acaso, os críticos de vinhos portugueses sublinham que a região se encontra em ascensão meteórica.
A história vinícola da Estremadura remonta aos fenícios, que teriam transportado videiras da Síria para a foz do Tejo. Depois, os romanos emprestaram à região seu conhecimento de vinicultura. Porém, com a chegada dos árabes à Península Ibérica, a atividade foi interrompida e só pôde ser retomada depois da Reconquista. Durante a Idade Média, a presença de diversas ordens religiosas estimulou a elaboração de vinhos nos mosteiros, originalmente destinados à missa. A essa altura, os tintos da Estremadura fizeram fama. Mas, com o passar do tempo, a zona cultivou sua vocação destiladora, ocupando- se de fornecer a base para as aguardentes do Douro e exportando vinhos para as colônias, entre elas o Brasil.
Localizada na vizinhança da capital, Lisboa, a Estremadura faz fronteira com as regiões das Beiras, ao norte, Ribetejo, a oeste, e ao sul com as Terras do Sado. Caracteriza-se pela diversidade: abriga terras de aluvião e encostas calcárias, tem clima de transição e vegetação dividida entre a mediterrânea e a da Europa Central. O resultado é que dá origem a vinhos distintos em suas diversas áreas. A região se divide em nove Denominações de Origem, mas desde 1991 vigora ali também a classificação Vinho Regional da Estremadura, que designa brancos e tintos de mesa, produzidos em área específica, com o mínimo de 85% de castas autorizadas localmente.
A apenas 20 quilômetros ao norte de Lisboa encontra-se a Denominação de Origem Bucelas, celebrada pelos brancos produzidos com a casta Arinto. Ali, essa cepa resulta em vinhos de personalidade, com acidez, evidente frescor e aromas tropicais. A Esgana Cão (também chamada de Sercial) e a Rabo da Ovelha são outras castas bastante utilizadas. Essa zona foi demarcada em 1907 e hoje soma 200 hectares de vinhas distribuídas entre seis produtores, como a Quinta da Romeira, que tem 80 hectares de vinhedos e produz os brancos Prova Régia Bucelas Arinto e o Morgado de Sta Catherina Bucelas Arinto; e o tinto Pegos Claros Palmela, cheio de personalidade. Os três chegam ao Brasil importados pela Mistral, de São Paulo.
Outra Denominação de Origem que desfruta de grande prestígio é Alenquer, que se estende das encostas da Serra de Montejunto às margens do Tejo, distribuída por colinas e vales. Um trabalho cuidadoso de reestruturação dos vinhedos deu fama aos tintos dessa região tradicionalmente festejada pelos brancos, a partir da criação da D.O. em 1999. Das vinícolas que se destacam em Alenquer, a Quinta da Cortezia, que passou por renovação ampla da adega em 2004, faz brancos e tintos importados ao Brasil pela Casa Flora, de São Paulo. Seu Arinto sai como Vinho Regional da Estremadura. O tinto Vinha Conchas Special tem base em 55% de Touriga Nacional cortada com Tinta Roriz, Merlot e Alicante Bouchet. Tintos, brancos e rosados levam a assinatura do enólogo Miguel Reis Catarino, e a empresa está nas mãos da quinta geração da família.
Ainda na D.O. de Alenquer, a Quinta de Chocapalha tem tradição vinícola que remonta ao século XVI, mas foi replantada a partir de 1987, quando o ex-oficial da Marinha Tavares da Silva comprou as terras, localizadas a 50 quilômetros de Lisboa. Ele aproveitou as raízes da Castelão para enxertar Touriga Nacional. "A qualidade final é de uma vinha velha, com mais aromas", diz o proprietário, que divide a elaboração de vinhos com a filha agrônoma e master em enologia (e ex-top model), Sandra Tavares da Silva. Só começaram a fazer vinho ali no ano 2000, usando lagares (para Tinta Roriz, Touriga e Syrah) e cubas (para os demais), além de prensas antigas. Vinificam apenas 50% de sua produção. Seus tintos de classe são importados pela Mistral, o Quinta do Chocapalha, um monovarietal Cabernet Sauvignon, e o Chocapalha, corte de Touriga Nacional, Aragonez, Castelão e Alicante Bouchet.
Em Freixal de Cima, localiza-se outra jóia do Alenquer, a prestigiosa Quinta do Monte D'Oiro, vinícola do engenheiro José Bento dos Santos, um ativo gastrônomo e vinhateiro que faz questão de apresentar seus premiados vinhos em memorável harmonização com músicas. Na visita de Gula, os temas foram Syrah e Paganini, um espetáculo de paladar e som em que desfilaram o Vinha da Nora Reserva 2002, um Syrah de estilo europeu; o Seleção Syrah 2003, o Quinta do Monte D'Oiro Reserva 2003 e o Lybra 2004, 100% Syrah, um vinho fácil de beber e menos concentrado, feito sob medida para o público jovem. No Brasil, são distribuídos pela Mistral.
A área geográfica correspondente à Denominação de Origem Óbidos abrange os conselhos de Óbidos, Bombarral, Cadavel e Caldas da Rainha. Apesar da pouca tradição local em espumantes, é ali que se elaboram os bem-sucedidos Loridos Bruto e Loridos Branco de Brancas, importados pela Portus Cale, de São Paulo. São as duas jóias da Estremadura nas terras de Bombarral, onde o surpreendente comendador Joe Berardo, seu proprietário, está terminando a construção de um enorme jardim zen, com estátuas gigantescas importadas do Oriente e instaladas ao redor de um lago. O inusitado parque será aberto à visitação pública. Em Óbidos, também se situa a Quinta do Gradil, ex-propriedade do Marquês de Pombal, onde se produzem os vinhos regionais com as marcas Cortello, elaborado com a cepa Castelão e Berço do Infante, distribuídos pela Expand, de São Paulo, além do Quinta do Gradil, um corte de Touriga Nacional, Alicante Bouchet e Trincadeira. As outras Denominações de Origem da Estremadura são Arruda, Carcavelos, Colares, Lourinha, Torres Vedras e Encostas D'Aire. Todas elas passam por processo de modernização das adegas e reestruturação dos vinhedos. Não por acaso, os críticos de vinhos portugueses sublinham que a região se encontra em ascensão meteórica.
Publicada na edição 178 (Agosto/2007) da Gula
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