Cenas de um jantar
Na edição passada, GULA reconstituiu o almoço que o genial cineasta Michelangelo Antonioni, recentemente falecido, ofereceu na Itália, em 2001, ao amigo Caetano Veloso. Nesta, relatamos o jantar em homenagem a ele, ocorrido em setembro, no restaurante carioca Cipriani, do Copacabana Palace, com a presença do grande compositor brasileiro, dos diretores de cinema Cacá Diegues e Miguel Faria, do jornalista Sérgio Augusto e outras personalidades
Alice Granato
"Hoje, estou conseguindo apreciar melhor os pratos que no almoço na casa do Antonioni", explicou Caetano
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Elegante em uma camisa de tons terra, Caetano Veloso foi o primeiro convidado a chegar ao jantar, na noite de 10 de setembro, no Rio de Janeiro. Passavam poucos minutos das 9 horas quando o grande compositor e cantor surgiu sozinho, iluminado pela reluzente piscina do Copacabana Palace. Em seguida, entraram no belíssimo salão do restaurante Cipriani os cineastas Cacá Diegues e Miguel Faria com suas mulheres, Renata e Luciana, e o casal de jornalistas Maria Lúcia Rangel e Sérgio Augusto. Com a ajuda da empresária Gilda Mattoso, Gula reconstituiu na edição passada o almoço oferecido a Caetano por Michelangelo Antonioni em sua casa de campo em Trevi, na Itália, em 2001. Nesta, repete a homenagem de maneira igualmente glamourosa, em um jantar carioca. O chef Francesco Carli, do Cipriani, fez uma releitura dos seis pratos do menu original, todos clássicos da cozinha italiana, e arrasou, do início ao fim. "Está uma maravilha", elogiou Caetano. A esposa de Antonioni, Enrica, informada do evento por Gilda, mandou "sua bênção". "Tempismo perfetto per dirvi buona cena!!! Sono com voi e certamente anche Michelangelo. Sono felice di avere degli amici così fantastici como voi" ("Tempo perfeito para desejar um bom jantar!!! Estou com vocês e certamente Michelangelo também estaria. É uma felicidade ter amigos fantásticos como vocês"), escreveu ela da Itália à amiga brasileira.
O entusiasmo da viúva do saudoso cineasta foi comemorado, e o jantar, como num bom filme, teve cenas maravilhosas. Cacá Diegues relembrou com saudade não somente os filmes do mestre Antonioni que, segundo ele, causaram-lhe muita emoção, mas também as comédias. "O Ettore Scola diz que os filmes italianos explicam melhor o país que o neo-realismo", lembrou Cacá. Todos concordaram. O humor do cinema italiano traduz muito bem o povo. Sérgio Augusto revelou sua incrível memória cinematográfica e descreveu cenas inteiras de clássicos divertindo a todos. Lembrou da primeira vez em que esteve na Itália quando tentou pedir uma massa al pomodoro, mas confundiu-se e pediu a pasta "al pomeriggio", ou seja, "à tarde", ouvindo imediatamente do garçom: "É um poeta!". Rindo mais uma vez do episódio, Sérgio comentou: "O humor deles é fantástico".
A conversa fluiu animada, e a seqüência de iguarias que o chef Carli enviava à mesa arrancava suspiros. O segundo prato, tortelli L'Aquilone di zucca e mostarda com sálvia frita, harmonizado com o rosé nacional Villa Francioni safra 2006, foi o que provocou maior comoção. "Hoje, estou conseguindo apreciar melhor os pratos que no almoço na casa do Antonioni", explicou Caetano. "Como eu acordo muito tarde, na hora do almoço ainda não tenho tanto apetite. Jantar para mim é sempre melhor."
Caetano estava feliz com o sucesso da turnê que fez pela América do Sul para promover o CD Cê. Ele havia acabado de chegar de viagem e trouxe na bagagem ótimas histórias. Mostrava-se especialmente encantado com o México, de onde só não gostou da comida. "É muito ruim", comentou. Como bom baiano, acostumou-se desde a infância à comida bem temperada (adora dendê), mas não se deixou seduzir pelo acento quente da cozinha mexicana. Caetano também se encontrava radiante com os preparativos para o aniversário de 100 anos de sua mãe, Dona Canô, por sinal, uma cozinheira excepcional. "As moquecas de minha mãe são a melhor coisa do mundo", elogiou.
Da Itália para a América do Sul, fazendo escala na Santo Amaro de Caetano, a conversa viajou por diversos lugares, mas o foco voltava sempre para Antonioni, o protagonista do encontro. Miguel Faria, diretor do filme Vinicius, disse que gosta de rever sempre as fitas dele. "É muito interessante rever, pois cada vez eu as sinto de uma forma", sublinhou. "La Aventura devo ter visto umas sete vezes." Os convivas ainda enfatizaram o fato de o cinema ser a arte da espera, por ter um processo geralmente lento, do nascimento da idéia a sua conclusão. Cinéfilo confesso, Caetano tem também uma memória invejável. É capaz de descrever cenas inteiras, comentando minúcias. Fez isso durante o jantar, lembrando dos clássicos do amigo Antonioni, como Profissão Repórter, Blow Up, La Aventura e Eros, seu último filme para o qual Caetano compôs uma linda música. Foi Cacá Diegues quem o apresentou ao cineasta italiano, em um jantar em sua casa em 1995. "Esta eu devo ao Cacá", reconheceu o compositor e cantor.
Quando Caetano conheceu Antonioni, ele já havia sofrido um derrame que restringiu seus movimentos e praticamente o impedia de falar. "Mas se comunicava muito bem, mesmo sem a fala", observou Caetano. "No dia do almoço em sua casa de campo, estava muito alegre, dava gargalhadas à mesa", lembrou. Na seqüência final do jantar, foram servidos queijos acompanhados de uma compota de cebola e do vinho Lis Neris Cabernet Sauvignon, safra 2002. O grand finale foi com a bavarese Eros de morango com gotas de chocolate quente. Enfim, foi um jantar para não se esquecer jamais, como os filmes de Antonioni.
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O entusiasmo da viúva do saudoso cineasta foi comemorado, e o jantar, como num bom filme, teve cenas maravilhosas. Cacá Diegues relembrou com saudade não somente os filmes do mestre Antonioni que, segundo ele, causaram-lhe muita emoção, mas também as comédias. "O Ettore Scola diz que os filmes italianos explicam melhor o país que o neo-realismo", lembrou Cacá. Todos concordaram. O humor do cinema italiano traduz muito bem o povo. Sérgio Augusto revelou sua incrível memória cinematográfica e descreveu cenas inteiras de clássicos divertindo a todos. Lembrou da primeira vez em que esteve na Itália quando tentou pedir uma massa al pomodoro, mas confundiu-se e pediu a pasta "al pomeriggio", ou seja, "à tarde", ouvindo imediatamente do garçom: "É um poeta!". Rindo mais uma vez do episódio, Sérgio comentou: "O humor deles é fantástico".
A conversa fluiu animada, e a seqüência de iguarias que o chef Carli enviava à mesa arrancava suspiros. O segundo prato, tortelli L'Aquilone di zucca e mostarda com sálvia frita, harmonizado com o rosé nacional Villa Francioni safra 2006, foi o que provocou maior comoção. "Hoje, estou conseguindo apreciar melhor os pratos que no almoço na casa do Antonioni", explicou Caetano. "Como eu acordo muito tarde, na hora do almoço ainda não tenho tanto apetite. Jantar para mim é sempre melhor."
Caetano estava feliz com o sucesso da turnê que fez pela América do Sul para promover o CD Cê. Ele havia acabado de chegar de viagem e trouxe na bagagem ótimas histórias. Mostrava-se especialmente encantado com o México, de onde só não gostou da comida. "É muito ruim", comentou. Como bom baiano, acostumou-se desde a infância à comida bem temperada (adora dendê), mas não se deixou seduzir pelo acento quente da cozinha mexicana. Caetano também se encontrava radiante com os preparativos para o aniversário de 100 anos de sua mãe, Dona Canô, por sinal, uma cozinheira excepcional. "As moquecas de minha mãe são a melhor coisa do mundo", elogiou.
Da Itália para a América do Sul, fazendo escala na Santo Amaro de Caetano, a conversa viajou por diversos lugares, mas o foco voltava sempre para Antonioni, o protagonista do encontro. Miguel Faria, diretor do filme Vinicius, disse que gosta de rever sempre as fitas dele. "É muito interessante rever, pois cada vez eu as sinto de uma forma", sublinhou. "La Aventura devo ter visto umas sete vezes." Os convivas ainda enfatizaram o fato de o cinema ser a arte da espera, por ter um processo geralmente lento, do nascimento da idéia a sua conclusão. Cinéfilo confesso, Caetano tem também uma memória invejável. É capaz de descrever cenas inteiras, comentando minúcias. Fez isso durante o jantar, lembrando dos clássicos do amigo Antonioni, como Profissão Repórter, Blow Up, La Aventura e Eros, seu último filme para o qual Caetano compôs uma linda música. Foi Cacá Diegues quem o apresentou ao cineasta italiano, em um jantar em sua casa em 1995. "Esta eu devo ao Cacá", reconheceu o compositor e cantor.
Quando Caetano conheceu Antonioni, ele já havia sofrido um derrame que restringiu seus movimentos e praticamente o impedia de falar. "Mas se comunicava muito bem, mesmo sem a fala", observou Caetano. "No dia do almoço em sua casa de campo, estava muito alegre, dava gargalhadas à mesa", lembrou. Na seqüência final do jantar, foram servidos queijos acompanhados de uma compota de cebola e do vinho Lis Neris Cabernet Sauvignon, safra 2002. O grand finale foi com a bavarese Eros de morango com gotas de chocolate quente. Enfim, foi um jantar para não se esquecer jamais, como os filmes de Antonioni.
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Publicada na edição 180 (Outubro/2007) da Gula
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