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Os vinhos do arquipélago

Guilherme Rodrigues

Osvaldo

O cultivo da uva é antigo no Japão. Afirma- se que a mais ilustre casta do país, a resistente e emblemática Koshu, de pele rosada, foi trazida do Cáucaso, através da Rota da Seda, com a propagação do budismo. Dá vinhos brancos, secos ou doces, com 9 a 10 graus de álcool. Encontrou seu terroir perfeito nas encostas do Monte Fuji, na localidade de Katsunuma, não por acaso um dos lugares com menor pluviosidade no arquipélago japonês. Até hoje floresce ali. O pioneiro no cultivo teria sido o monge budista Gyoki. Após uma visão divina, deu início ao cultivo dos parreirais, para fins medicamentosos, e fundou o templo Daezenji, em 718 d.C. Ele disse haver enxergado Buda segurando um cacho de uvas. Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao arquipélago do Japão, na primeira metade do século XVI, impulsionados pelos missionários jesuítas. Levaram a cultura do vinho, imprescindível à celebração da missa. Até então, as videiras locais proporcionavam sobretudo frutas de mesa e para usos médicos. Pela ação missionária dos jesuítas, a região de Nagasaki contava, por volta de 1600, com aproximadamente 300.000 cristãos.

São Francisco Xavier, que lá desembarcou em 1549, revelava enorme admiração pelos japoneses, a quem qualificou como o melhor povo até então descoberto. Em 1639, o Japão se fechou aos ocidentais por mais de dois séculos, durante a era Tokugawa. Baniu os costumes cristãos, e o vinho caiu no ostracismo. Seus portos seriam reabertos somente em 1853. Aí novamente se retomaram a elaboração e o consumo do vinho. Então, as uvas começaram a ser replantadas em toda parte, à exceção apenas de Okinawa, no extremo sul, com clima tropical absolutamente incompatível. Yamanashi, a sudoeste de Tóquio, onde se situam os lendários vinhedos de Katsunuma, é hoje o maior centro de produção e o coração da indústria vinícola nipônica, com mais de 80 vinícolas, que se destacam entre as cerca de 250 existentes no país. Possui clima quente, altitudes entre 200 metros e 450 metros. As vinícolas empregam tanto uvas próprias, como procedentes de diversas regiões japonesas. Com o aquecimento global, os produtores têm procurado terras mais elevadas. Quem explica isso é Bruce Gutlove, da excelente vinícola nipônica Coco Farm & Wineries, de Hokkaido, a ilha no extremo norte do Japão.

Sua região apresenta invernos gelados, pesadas nevascas e uma estação produtiva curta. Alcança promissores resultados com as uvas alemãs Kerner, Muller-Thurgau, Sylvaner. Como as viníferas européias não vão tão bem no arquipélago, em função dos solos ácidos e da alta umidade, muitos produtores se voltam para as uvas de mesa. Não por acaso, os brancos elaborados com a Koshu podem ser considerados os de vinhos japoneses por excelência. Têm um frutado que evoca pêssego e pomelo. Recentemente, o enomagnata francês Bernard Magrez, dono do Château Pape-Clement, entre outros empreendimentos, associou-se ao japonês Aruga, para elaborar vinhos finos com essa uva, em Katsunuma. É bem verdade que as nobres viníferas francesas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Chardonnay também são cultivadas, porém em menor escala. Entre as tintas, a Merlot é a que vai melhor. De modo geral, os investimentos não param. Expressam o grande empenho na evolução da vitinicultura da Terra do Sol Nascente.

Publicada na edição 187 (Maio/2008) da Gula


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