O marquês do Porto
Como o Marquês de Pombal ajudou o Porto a suportar as adversidades do início do século XIX
POR GUILHERME RODRIGUES
Enquanto a corte de dom João VI vivia à fresca no opulento Brasil, Portugal era devastado pela guerra peninsular entre os invasores franceses e a resistência nacional, apoiada pelos soldados britânicos. Não por acaso, a cidade do Porto precisou se defender - e nos referimos a ela em razão dos inevitáveis reflexos na produção do vinho homônimo. Foi ocupada duas vezes a partir de 1807. Só em 1811, após a derrota no Buçaco, na região das Beiras, centro do país, as tropas francesas deixaram de vez Portugal.
Naquele ano, por afortunada coincidência, a natureza propiciou uma grande colheita de uvas para o Vinho do Porto, que resultou no Vintage do Cometa. O nome se explica. Deveu-se ao cometa descoberto em março pelo astrônomo francês Honoré Flaugergues, visível por muitos meses a olho nu, cuja enorme cauda tinha 176 milhões de quilômetros de comprimento. Outra colheita memorável foi a de 1815, batizada de Vintage Waterloo, pois ocorreu no ano em que Napoleão foi derrotado na Bélgica pelas tropas Aliadas, comandadas pelo britânico duque de Wellington.
Apesar da guerra peninsular, o Porto seguiu sendo elaborado e enviado ao Brasil. Entre 1810 e 1815, anualmente cerca de 1 milhão de garrafas aqui chegaram, que se elevaram para mais de 3 milhões ao ano no qüinqüênio seguinte. Era um volume superior ao da importação de 2007, que ficou em quase 1,3 milhão de garrafas. Observe-se que a população era várias vezes menor. A incomensurável riqueza do ouro enriquecia o Brasil. Nosso país podia comprar e era uma delícia. Portanto, fica explicada a relutância da corte em voltar a Portugal, um país arruinado.
Por que o Porto suportou as adversidades do início do século XIX? Por trás de sua força, havia a contribuição do Marquês de Pombal (1699-1872), primeiro-ministro de dom José I, o pai de dona Maria I e avô de dom João VI. Ele também fora vinhateiro, produtor de Carcavelos, em sua quinta de Oeiras, perto de Lisboa. Entendia a riqueza que era o Porto. Para defendê-lo, editou a demarcação geral da região do Douro, em 1756. Foi realmente a primeira verdadeira demarcação vinícola, a pioneira em traduzir uma ampla regulação econômica, com aplicação da fitogeografia e a intervenção constante de organismos públicos para regê-la. Essa é a noção das denominações de origem controlada, não da simples indicação de limites e de eventualmente castas, ocorrida em outras latitudes. A criação da Real Companhia aparelhou a demarcação.
Odiado pela corte de dona Maria I e de seu marido e tio, dom Pedro III, Pombal foi destituído, julgado e condenado ao desterro após a morte de dom José I. Contudo, sua ação, iniciada em 1750 e interrompida em 1777, mudara a face do reino. Expulsou jesuítas, organizou a economia, pôs um torniquete nos dispêndios da corte - daí os ódios que lhe devotava o "enxame de parasitas" -, disciplinou as finanças públicas e reconstruiu Lisboa depois da devastação do terremoto de 1755.
No caso específico do vinho, tomou muitas outras medidas como mandar arrancar as vinhas da Bairrada, acusadas de abastecer fraudes do Porto. Pombal também queria ver plantado o trigo, essencial para a economia, nas terras férteis da Bairrada, em lugar das vinhas aleatórias. Aproveitou a deixa e sentenciou de morte os vinhedos concorrentes do Douro. A partir dele, o Porto cresceu e se estruturou para sempre. Triunfou à ocupação francesa, que foi o primeiro grande teste de resistência da demarcação pombalina. Pode-se dizer que venceu as tropas invasoras, até porque seus soldados o bebiam e, segundo consta, chegaram a enviálo ao comandante supremo, Napoleão Bonaparte.
Naquele ano, por afortunada coincidência, a natureza propiciou uma grande colheita de uvas para o Vinho do Porto, que resultou no Vintage do Cometa. O nome se explica. Deveu-se ao cometa descoberto em março pelo astrônomo francês Honoré Flaugergues, visível por muitos meses a olho nu, cuja enorme cauda tinha 176 milhões de quilômetros de comprimento. Outra colheita memorável foi a de 1815, batizada de Vintage Waterloo, pois ocorreu no ano em que Napoleão foi derrotado na Bélgica pelas tropas Aliadas, comandadas pelo britânico duque de Wellington.
Apesar da guerra peninsular, o Porto seguiu sendo elaborado e enviado ao Brasil. Entre 1810 e 1815, anualmente cerca de 1 milhão de garrafas aqui chegaram, que se elevaram para mais de 3 milhões ao ano no qüinqüênio seguinte. Era um volume superior ao da importação de 2007, que ficou em quase 1,3 milhão de garrafas. Observe-se que a população era várias vezes menor. A incomensurável riqueza do ouro enriquecia o Brasil. Nosso país podia comprar e era uma delícia. Portanto, fica explicada a relutância da corte em voltar a Portugal, um país arruinado.
Por que o Porto suportou as adversidades do início do século XIX? Por trás de sua força, havia a contribuição do Marquês de Pombal (1699-1872), primeiro-ministro de dom José I, o pai de dona Maria I e avô de dom João VI. Ele também fora vinhateiro, produtor de Carcavelos, em sua quinta de Oeiras, perto de Lisboa. Entendia a riqueza que era o Porto. Para defendê-lo, editou a demarcação geral da região do Douro, em 1756. Foi realmente a primeira verdadeira demarcação vinícola, a pioneira em traduzir uma ampla regulação econômica, com aplicação da fitogeografia e a intervenção constante de organismos públicos para regê-la. Essa é a noção das denominações de origem controlada, não da simples indicação de limites e de eventualmente castas, ocorrida em outras latitudes. A criação da Real Companhia aparelhou a demarcação.
Odiado pela corte de dona Maria I e de seu marido e tio, dom Pedro III, Pombal foi destituído, julgado e condenado ao desterro após a morte de dom José I. Contudo, sua ação, iniciada em 1750 e interrompida em 1777, mudara a face do reino. Expulsou jesuítas, organizou a economia, pôs um torniquete nos dispêndios da corte - daí os ódios que lhe devotava o "enxame de parasitas" -, disciplinou as finanças públicas e reconstruiu Lisboa depois da devastação do terremoto de 1755.
No caso específico do vinho, tomou muitas outras medidas como mandar arrancar as vinhas da Bairrada, acusadas de abastecer fraudes do Porto. Pombal também queria ver plantado o trigo, essencial para a economia, nas terras férteis da Bairrada, em lugar das vinhas aleatórias. Aproveitou a deixa e sentenciou de morte os vinhedos concorrentes do Douro. A partir dele, o Porto cresceu e se estruturou para sempre. Triunfou à ocupação francesa, que foi o primeiro grande teste de resistência da demarcação pombalina. Pode-se dizer que venceu as tropas invasoras, até porque seus soldados o bebiam e, segundo consta, chegaram a enviálo ao comandante supremo, Napoleão Bonaparte.
Publicada na edição 188 (Junho/2008) da Gula
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