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Tintim Ypióca!

O crescimento da produção de aguardente no Brasil

POR ENNIO FEDERICO

Paulo Bareta

Ypióca

O surgimento da cachaça no Brasil aconteceu graças aos portugueses. Deu-se após a introdução da cana-de-açúcar, em seguida do nosso descobrimento, com a chegada dos alambiques e a técnica de destilação que nossos primeiros colonos trouxeram. Acostumados com a produção da bagaceira - destilado dos restos da fermentação do suco de uva -, o processo já lhes era familiar. Era só repetir com o caldo de cana fermentado e uma nova bebida seria criada. Foi Martim Afonso de Souza, em 1534, quem construiu na Capitania de São Vicente, em São Paulo, o primeiro engenho para a produção da "aguardente de cana". Ministrada aos escravos junto com a primeira refeição do dia, permitia que eles suportassem melhor o trabalho nos canaviais. Hoje, em ruínas, o então chamado Engenho Erasmus é um sítio documental. Com o passar do tempo, a produção se estendeu para outros núcleos de povoamento, o processo de elaboração e a qualidade melhoraram, o consumo cresceu e a aguardente, já com o nome de cachaça, tornou-se o destilado mais popular do Brasil.

Em 1846, outro português deu início à produção da bebida, utilizando um alambique de cerâmica. O fato aconteceu no Ceará, por obra de Dario Telles de Menezes, que havia imigrado de Portugal para se estabelecer naquela região canavieira. Radicando-se na cidade de Maranguape, no interior, iniciou a produção da agora nacionalmente famosa Ypióca. Em tupi-guarani, a palavra significa terra roxa. É um terreno extremamente fértil e propício ao cultivo da cana-de-açúcar. Já na quarta geração, a família que faz a Ypióca também se dedica a outras atividades e integra hoje um sistema de sete empresas com ramificações em água mineral (Naturágua), agropecuária, papelão, plásticos etc. Há 162 anos não sai do controle do clã.

Sua atividade principal, no entanto, continua sendo a produção de aguardente de cana e várias inovações ocorreram tanto no processo quanto na forma de apresentar o produto: na segunda geração (1895-1924), teve início a comercialização da bebida em garrafas de vidro e tampas de cortiça; na terceira (1924-1970), fez-se o primeiro engarrafamento em litros, adotou-se o uso do conta-gotas, o revestimento das garrafas com palha de carnaúba e o envelhecimento em barricas de bálsamo. Foi também mérito de Paulo Campos Telles, da terceira geração, a primeira exportação de aguardente de cana para a Alemanha, ocorrida em 1968. Já a quarta geração, sob a direção de Everardo Ferreira Telles, há 30 anos no comando do grupo, inovou a tecnologia de produção, instalou novas unidades industriais e aumentou a capacidade de 2,5 milhões para 80 milhões de litros por ano. Hoje, sua primorosa cachaça é consumida em todos os Estados brasileiros e em mais de 40 países. Além disso, com dois anos de atraso, pois celebra os 160 anos da marca, festejados em 2006, Everardo acaba de colocar à venda a jóia da coroa. É a Ypióca extra premium, a primeira no Brasil a usar malte na composição, segundo a empresa. Foi envelhecida seis anos em tonéis de carvalho, o que lhe garantiu bouquet e sabor extraordinários.

Um atrativo para quem visita a primeira unidade fabril da Ypióca, em Maranguape, é o Museu da Cachaça. Localiza-se a 30 quilômetros de Fortaleza. Desde agosto de 2000, um casarão construído em 1846 abriga a instituição, com um acervo de mapas, documentos, fotos, filmes, máquinas, garrafas, equipamentos agrícolas e tonéis de bálsamo, dentre outros, que se unem a recursos audiovisuais e cênicos de última geração. Todo esse valioso acervo histórico-cultural do chamado Sítio Ypióca faz parte da presença constante de grupos de turistas. O visitante ainda poderá conhecer o maior tonel de madeira do mundo, com capacidade para 374.000 litros, cuja primazia foi reconhecida pelo Guinness Book, e sentar-se em um botequim de época, para tomar um delicioso caldo- de-cana ou saborear uma cachaça de pedigree. Tintim Ypióca!

Publicada na edição 188 (Junho/2008) da Gula


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