Gula

GULA > Junho/2008 > Azeite
Tamanho do texto: A A A

O azeite brasileiro

A evolução da produção do óleo de oliva no Brasil, do início da colonização aos dias de hoje

POR ISAAC AZAR

Do início da colonização nacional até os dias de hoje, o óleo de oliva ou azeite, como se prefere dizer no país, aparece como um dos principais itens de exportação de Portugal ao Brasil. Tão importante já era na balança comercial da metrópole que o plantio de oliveiras foi proibido nas colônias, a fim de se evitar uma eventual concorrência. Não por acaso, entre os ingredientes da viagem que trouxe a família imperial ao Rio de Janeiro, em 1808, encontrava-se o azeite. Atualmente, o decreto português parece ter chegado ao fim. Agora, a ex-colônia Brasil dá seus primeiros passos na direção da produção de seu próprio óleo de oliva. Embora no começo, mostramse promissores.

Sob influência das conquistas fenícias, a olivicultura virou tradição na Península Ibérica há mais de 12 séculos. Durante o Império Romano, a região respondia por mais de 70% da produção mundial e uma região como a Andaluzia se notabilizava por sua elaboração. Posteriormente, com a divisão política entre Portugal e Espanha, o azeite luso passou a ter menos expressão quantitativa que o andaluz, ainda que muitas vezes ostentasse características sensoriais mais nobres. Contudo, pela herança colonizadora, ao longo dos últimos cinco séculos Portugal se consolidou como a principal fonte do azeite consumido no Brasil. Sempre fomos o principal destino do produto lusitano. A latinha de azeite português - envolta em guardanapo de papel - tornou-se ornamento obrigatório de bares e restaurantes nacionais.

Nos últimos três anos, ela foi recebendo a concorrência da garrafa, mais elegante. A antiga embalagem ainda existe. Mas a nova, contendo azeite extravirgem, faz sucesso. Restaurantes e mercados mais sofisticados passaram a trabalhar com o óleo de oliva lusitano de qualidade superior, como os regionais com denominação de origem controlada (ideais para a harmonização com pratos típicos). Um exemplo de combinação tradicional portuguesa é o bacalhau à lagareiro. Camponês da olivicultura, o lagareiro se utiliza do sumo das primeiras azeitonas colhidas na safra. Mais amargo e mais picante, o produto recém-prensado é então servido na travessa, com lascas de bacalhau grelhado, alho e batatas ao murro assadas. A complexidade do azeite dispensa à receita quaisquer outros ingredientes. E o resultado final: a perfeita convivência entre sabores e aromas tipicamente portugueses.

Voltemos ao tema do primeiro parágrafo. Até há pouco tempo, o óleo de oliva brasileiro era azeite engarrafado no Brasil. Nos últimos anos, contudo, deu-se mais atenção a nossas tipicidades. Projetos de olivicultura ganharam vida. Em Maria da Fé, sul de Minas Gerais, extraíram-se no início de 2008 amostras legitimamente brasileiras. As primeiras oliveiras chegaram de Portugal na década de 40. Com o cruzamento de outras variedades, somado aos fatores de adaptação climática, a localidade pleiteia atualmente o reconhecimento de uma variedade própria, a Maria da Fé. Seu fruto é pequeno, assemelhando-se à italiana Taggiasca. Mas é brasileira. O azeite é levemente frutado, de amargor e picor ainda inexpressivos. Nada que a experimentação e evolução ao longo dos anos não aprimorem. Haverá, então, o dia em que o Brasil se tornará produtor de seu próprio óleo de oliva, com sabores e aromas característicos de nosso terroir, em harmonia com a história pátria e, sobretudo, identificado com a nossa gastronomia.

Publicada na edição 188 (Junho/2008) da Gula


Outras delícias

Cassoulet, a feijoada francesa

Saiba mais sobre o cassoulet, receita francesa que também nasceu de sobras


Beleza americana

O arquiteto Toledo Júnior conta como uniu elegância e praticidade num equipado espaço gourmet



 


Brancaleone