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A pesquisadora da realeza

Apaixonada por doces e pela figura da princesa Isabel, a historiadora Ana Roldão levantou os hábitos alimentares da família imperial e publicará seu trabalho no livro Banquetes Reais Históricos, a ser lançado no fim do ano

POR ALICE GRANATO
FOTO ANNA KAHN

A historiadora Ana Roldão

Como a maioria das mulheres, a princesa Isabel tinha preocupações estéticas e se afligia com o peso. Manifestava suas inquietações tipicamente femininas nas cartas para a irmã, a princesa Leopoldina. Essa e outras questões foram pesquisadas pela historiadora Ana Roldão, em 3.000 correspondências, cardápios residenciais e de viagens, banquetes oficiais e livros de cozinha relacionados com a família imperial brasileira. O material servirá de base para a obra que ela lançará no fim do ano pela Jorge Zahar Editor, do Rio de Janeiro, intitulada Banquetes Reais Históricos, a primeira de sua autoria, escrita a quatro mãos com o jornalista Edmundo Barreiros. Terá 300 páginas e 160 receitas. Além disso, o leitor poderá acompanhar saborosos trechos das cartas. "O livro não pretende ser científico, mas tem documentos históricos", enfatiza. Ana Roldão é portuguesa e vive no Brasil desde 1993, quando trocou Lisboa pelo Rio de Janeiro. Em Portugal, trabalhou no Instituto Português do Patrimônio Cultural/Palácio Nacional da Ajuda, como assessora da Presidência, de 1988 a 1993. Aqui, além de estudar a gastronomia dos séculos XVIII e XIX, sua especialidade, é gerente de negócios do Museu Imperial de Petrópolis, na Serra Fluminense.

A primeira e maior das curiosidades de Ana consistia em saber se, de fato, dom João VI era tão fanático por frangos quanto se diz, a ponto de saboreá-los com as próprias mãos. "Sim, ele era um glutão!", responde a historiadora. "Comia seis frangos diariamente, três em cada refeição, feitos por seu fiel cozinheiro, o Alvarenga. Eram assados e acompanhados de torradas." Segundo ela, o frango era uma paixão não somente do rei, mas de toda a sua família. "A casa de Bragança inteira gostava de frango", destaca. Em seguida, dom João se deliciava com frutas. "Apreciava as mangas da Bahia e também as laranjas."Ainda costumava degustar os doces de compota, confeccionados com pêra ou marmelo.

Embora a corte consumisse regularmente bebidas alcoólicas, champanhe Veuve Clicquot nos banquetes, vinho do Porto e Madeira, rum e aguardente, dom João não tinha esse hábito. Já dona Carlota Joaquina... Tomava cachaça combinada a frutas frescas e mandava usar o resto da aguardente para conservar alimentos. Para a historiadora, a mulher de dom João foi uma figura e tanto. "Ela era muito engraçada e tinha hábitos requintados, como o de saborear frutas secas e chocolate", afirma. "Apreciava a carne de caça também."

Depois de estudar a fundo os hábitos da família imperial, a pesquisadora se diz impressionada com sua simplicidade real. "Se a compararmos, por exemplo, com o fausto dos eventos cenográficos dos séculos XIII, XIV, observamos como era diferente", afirma. Dom Pedro II gostava muito de arroz e feijão. "Como se vê, eram pessoas muito simples." De todos os personagens estudados para compor o livro, ela prefere a princesa Isabel, com quem se identifica. "Tinha o gosto semelhante ao meu", diz. "Adorava falar de comida e era apaixonada pelos doces conventuais, com ovos e açúcar. Não a agradava nem um pouco fazer jejum." Talvez por isso a princesa benemérita, que aboliu formalmente a escravatura, manifestasse tamanha preocupação com a silhueta nas cartas à irmã. "Era uma formiga", define Ana.

Publicada na edição 188 (Junho/2008) da Gula


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