Os sabores da bossa nova
Um passeio etílico-gastronômico pelos lugares onde surgiu no Rio de Janeiro, há 50 anos, o gênero musical que até hoje encanta o mundo
POR ALICE GRANATO FOTOS ANNA HERNANDEZ
O Rio de Janeiro respira música. Seus bares e restaurantes antológicos nos levam a conhecer a história - e as histórias -, como escreveu Ruy Castro, dos gêneros musicais nascidos na Cidade Maravilhosa. Neste ano, a capital fluminense está em festa com o cinqüentenário de um dos mais importantes deles: a bossa nova. Em 1956, o jornalista Lúcio Rangel apresentou o poeta Vinícius de Moraes ao então jovem músico Tom Jobim, na Casa Villarino Bar, no Centro. Poderia ter sido ontem, pois o bar está ali, vivo, preservando a aura dos tempos idos. Sentar às mesas faz imaginar como teria sido esse encontro magistral para a história da música brasileira. Bem, as histórias também são imperdíveis... Para dar mais autenticidade à visita, é preciso pedir uma dose de whisky da marca JB e aperitivo de queijo com presunto, preferências daquela época, segundo o proprietário da casa e ex-garçom, Antonio Vasquez, que os servia na época.
Com diversos livros publicados sobre a bossa nova (entre eles, Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova, da Companhia das Letras, e Rio Bossa Nova, da Casa da Palavra), Ruy Castro afirma nos textos que as doses de whisky do Villarino eram generosas, "da altura de uma caixa de fósforos Beija-Flor, de pé, na vertical". Chamadas, por conseqüência, de "gabarito fosfórico". O Villarino foi o ponto de partida. Lá teria começado a surgir o LP Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, com músicas de Tom e Vinícius, lançado em 1958, com produção do jornalista Irineu Garcia, outro freqüentador assíduo do bar. João Gilberto, com seu violão, acompanhou Elizeth em duas faixas, "Chega de Saudade" e "Outra Vez". Era a primeira vez que se ouvia a batida da bossa nova. Dois meses mais tarde, João gravaria o single com "Chega de Saudade", do lado A, e "Bim Bom", do lado B. Este, como se sabe, é considerado o marco da invenção da bossa nova.
Nos anos 60, artistas e intelectuais começavam a dar efervescência à Ipanema de Tom Jobim, bairro em que o maestro soberano viveu e o qual sempre reverenciou. A célebre "Garota de Ipanema", de 1962, começou a ser pensada ali, no então bar Veloso, com o doce balanço da musa Helô Pinheiro. Pois, nascida a idéia, Tom e Vinícius teriam ido para casa e trabalhado dias a fio até ter pronta a canção que seria a mais famosa de todos os tempos. "Eu não presenciei, mas acho que foi apenas a inspiração que nasceu no bar", diz Carlinhos Lyra, outro grande mestre, que acaba de lançar o livro Eu & A Bossa, uma História da Bossa Nova, da editora Casa da Palavra. "A música foi trabalhada depois, em casa." De acordo com Lyra, a turma da bossa tinha suas preferências conforme os horários e os locais onde estava. Em bares como o Zeppelin e o Jangadeiros (ambos só existem na memória), pegavam mais leve, pois os freqüentavam no pós-praia. "Ali, íamos mais cedo, quase sempre depois da praia, tomávamos chope em tulipa de vidro e beliscávamos batata frita", conta Lyra.
Nesse grupo a que Lyra se refere, não raro estavam, entre outros, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Roberto Menescal, Baden Powell e, claro, o empolgadíssimo poeta Vinícius de Moraes, que em seu "Samba da Bênção", parceria com Baden, define Lyra como seu "parceirinho cem por cento, você que une ação ao pensamento e ao sentimento". Para comer, tinham também seus lugares cativos. Um deles, segundo Lyra, era o restaurante La Mole, que também acaba de completar 50 anos, na Rua Dias Ferreira, no Leblon. Além do couvert à moda tradicional, com pães quentinhos, patês, ovo de codorna, salame, queijo e azeitonas, os bossa-novistas apreciavam o filet à parmegiana, servido com fritas e arroz, e as massas do menu, como a lasagna. No Bar Lagoa, outro local "das antigas" querido dos cariocas, saboreavam as receitas da cozinha alemã, como as salsichas com batata e o kassler. O estabelecimento já está servindo a terceira geração da Família Tom Jobim, um dos maiores orgulhos dos garçons veteranos. "No Bar Lagoa, ainda bebe-se e come-se tão bem quanto antigamente, desde a época de antes da guerra, quando se chamava Bar Berlim, trocado para Bar Lagoa em virtude da repressão aos hábitos germânicos", acrescenta Lyra.
Além das mesas de bebida e comida, os músicos da bossa nova reuniam-se muito nas casas, daí a fama do apartamento de Nara Leão, na Avenida Atlântica. Outra residência fundamental foi a do pianista Bené Nunes, reputado como bom cozinheiro. "Quando ficávamos até mais tarde, ele preparava uma macarronada com molho de tomate, presunto, queijo", recorda Lyra. "Era realmente muito bom. Na casa de Vinícius, ele gostava de fazer feijoada, escreveu até um poema que é uma receita desse prato." Sobre o comportamento de cada um no grupo, Lyra revela que Ronaldo Bôscoli era um dos mais falantes, ao passo que Baden, Menescal e Nara falavam pouco. Vinícius, como se sabe, bebia muito. João Gilberto sempre pedia leite e água. Baden e Vinícius fumavam muito, além de gostar de comer bastante... "Ele parava até em um bar de segunda, no Leme, no meio da noite, para comer carne-seca com abóbora", lembra Lyra.
Quando queriam sair da toca, ver e ser vistos, iam à La Fiorentina, aberta em 1957. "Todos freqüentavam a casa para jantar, lugar onde, com certeza, encontrávamos conhecidos da música, do teatro e do Cinema Novo", afirma Lyra. A cantina e pizzaria é até hoje um local muito agradável no Leme, de frente para o mar, na qual podem ser saboreados a pizza de massa fininha, o chope bem tirado e curtir a atmosfera (com fotos e autógrafos nas paredes) dessa explosão cultural que viu acontecer em suas mesas. Para ter uma idéia da "vivacidade", o pianista João Donato, outro mestre da bossa nova, esteve ali dia desses e pediu para ter um prato com seu nome, um caldo de verduras que agora, honradamente, faz parte do cardápio, ao lado de diversas receitas favoritas de gente célebre.
O diretor de espetáculos musicais e agitador cultural Luis Carlos Miele conta só ter sentido chegar ao Rio de Janeiro, de verdade, quando o convidaram para assinar o mural da fama na Fiorentina. "Aí, sim, eu havia virado carioca", diz ele. Nascido em São Paulo, Miele mudou-se para a Cidade Maravilhosa em 1957. "As mesas da Fiorentina eram ocupadas por toda a classe artística: de Oscarito e Grande Othelo a Paulo Autran e Tônia Carrero, a Vinícius e Tom: uma maravilha." Miele participou ativamente dos shows do histórico Beco das Garrafas, em Copacabana, considerado o berço da bossa nova instrumental. Ali, se apresentavam nomes como Luis Eça, Luis Carlos Vinhas e Sérgio Mendes, e cantoras como Dolores Duran, Sylvinha Telles e Leny Andrade, nos espetáculos produzidos pela dupla Miele & Bôscoli nas boates Bottle's, Bacará e Little Club.
Miele está à frente da revitalização desses lugares, que devem reabrir as portas até o fim deste ano, inteiramente reformados. Será devolvido ao Rio o Beco das Garrafas, que ganhou o nome porque os vizinhos jogavam garrafas das janelas, furiosos com o barulho dos boêmios. A acústica das casas agora será perfeita, garantem os empresários envolvidos na empreitada. Miéle aposta que vão retomar o brilho de antigamente, com shows e jam sessions. As bebidas também devem, naturalmente, evoluir, pois naquela época alguns desses lugares não tinham nem geladeira. Segundo Miele, gigantescas pedras de gelo eram trazidas na cabeça de funcionários portugueses que chegavam de bicicleta. Só assim podiam preparar os drinques preferidos: cuba-libre, hi-fi e o Samba em Berlim (cachaça com Coca-Cola). Chega de saudade! Voltando o Beco, o Rio reviverá, com ímpeto especial, a criação imortal de uma geração genial: a bossa nova.
Com diversos livros publicados sobre a bossa nova (entre eles, Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova, da Companhia das Letras, e Rio Bossa Nova, da Casa da Palavra), Ruy Castro afirma nos textos que as doses de whisky do Villarino eram generosas, "da altura de uma caixa de fósforos Beija-Flor, de pé, na vertical". Chamadas, por conseqüência, de "gabarito fosfórico". O Villarino foi o ponto de partida. Lá teria começado a surgir o LP Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, com músicas de Tom e Vinícius, lançado em 1958, com produção do jornalista Irineu Garcia, outro freqüentador assíduo do bar. João Gilberto, com seu violão, acompanhou Elizeth em duas faixas, "Chega de Saudade" e "Outra Vez". Era a primeira vez que se ouvia a batida da bossa nova. Dois meses mais tarde, João gravaria o single com "Chega de Saudade", do lado A, e "Bim Bom", do lado B. Este, como se sabe, é considerado o marco da invenção da bossa nova.
Nos anos 60, artistas e intelectuais começavam a dar efervescência à Ipanema de Tom Jobim, bairro em que o maestro soberano viveu e o qual sempre reverenciou. A célebre "Garota de Ipanema", de 1962, começou a ser pensada ali, no então bar Veloso, com o doce balanço da musa Helô Pinheiro. Pois, nascida a idéia, Tom e Vinícius teriam ido para casa e trabalhado dias a fio até ter pronta a canção que seria a mais famosa de todos os tempos. "Eu não presenciei, mas acho que foi apenas a inspiração que nasceu no bar", diz Carlinhos Lyra, outro grande mestre, que acaba de lançar o livro Eu & A Bossa, uma História da Bossa Nova, da editora Casa da Palavra. "A música foi trabalhada depois, em casa." De acordo com Lyra, a turma da bossa tinha suas preferências conforme os horários e os locais onde estava. Em bares como o Zeppelin e o Jangadeiros (ambos só existem na memória), pegavam mais leve, pois os freqüentavam no pós-praia. "Ali, íamos mais cedo, quase sempre depois da praia, tomávamos chope em tulipa de vidro e beliscávamos batata frita", conta Lyra.
Nesse grupo a que Lyra se refere, não raro estavam, entre outros, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Roberto Menescal, Baden Powell e, claro, o empolgadíssimo poeta Vinícius de Moraes, que em seu "Samba da Bênção", parceria com Baden, define Lyra como seu "parceirinho cem por cento, você que une ação ao pensamento e ao sentimento". Para comer, tinham também seus lugares cativos. Um deles, segundo Lyra, era o restaurante La Mole, que também acaba de completar 50 anos, na Rua Dias Ferreira, no Leblon. Além do couvert à moda tradicional, com pães quentinhos, patês, ovo de codorna, salame, queijo e azeitonas, os bossa-novistas apreciavam o filet à parmegiana, servido com fritas e arroz, e as massas do menu, como a lasagna. No Bar Lagoa, outro local "das antigas" querido dos cariocas, saboreavam as receitas da cozinha alemã, como as salsichas com batata e o kassler. O estabelecimento já está servindo a terceira geração da Família Tom Jobim, um dos maiores orgulhos dos garçons veteranos. "No Bar Lagoa, ainda bebe-se e come-se tão bem quanto antigamente, desde a época de antes da guerra, quando se chamava Bar Berlim, trocado para Bar Lagoa em virtude da repressão aos hábitos germânicos", acrescenta Lyra.
Além das mesas de bebida e comida, os músicos da bossa nova reuniam-se muito nas casas, daí a fama do apartamento de Nara Leão, na Avenida Atlântica. Outra residência fundamental foi a do pianista Bené Nunes, reputado como bom cozinheiro. "Quando ficávamos até mais tarde, ele preparava uma macarronada com molho de tomate, presunto, queijo", recorda Lyra. "Era realmente muito bom. Na casa de Vinícius, ele gostava de fazer feijoada, escreveu até um poema que é uma receita desse prato." Sobre o comportamento de cada um no grupo, Lyra revela que Ronaldo Bôscoli era um dos mais falantes, ao passo que Baden, Menescal e Nara falavam pouco. Vinícius, como se sabe, bebia muito. João Gilberto sempre pedia leite e água. Baden e Vinícius fumavam muito, além de gostar de comer bastante... "Ele parava até em um bar de segunda, no Leme, no meio da noite, para comer carne-seca com abóbora", lembra Lyra.
Quando queriam sair da toca, ver e ser vistos, iam à La Fiorentina, aberta em 1957. "Todos freqüentavam a casa para jantar, lugar onde, com certeza, encontrávamos conhecidos da música, do teatro e do Cinema Novo", afirma Lyra. A cantina e pizzaria é até hoje um local muito agradável no Leme, de frente para o mar, na qual podem ser saboreados a pizza de massa fininha, o chope bem tirado e curtir a atmosfera (com fotos e autógrafos nas paredes) dessa explosão cultural que viu acontecer em suas mesas. Para ter uma idéia da "vivacidade", o pianista João Donato, outro mestre da bossa nova, esteve ali dia desses e pediu para ter um prato com seu nome, um caldo de verduras que agora, honradamente, faz parte do cardápio, ao lado de diversas receitas favoritas de gente célebre.
O diretor de espetáculos musicais e agitador cultural Luis Carlos Miele conta só ter sentido chegar ao Rio de Janeiro, de verdade, quando o convidaram para assinar o mural da fama na Fiorentina. "Aí, sim, eu havia virado carioca", diz ele. Nascido em São Paulo, Miele mudou-se para a Cidade Maravilhosa em 1957. "As mesas da Fiorentina eram ocupadas por toda a classe artística: de Oscarito e Grande Othelo a Paulo Autran e Tônia Carrero, a Vinícius e Tom: uma maravilha." Miele participou ativamente dos shows do histórico Beco das Garrafas, em Copacabana, considerado o berço da bossa nova instrumental. Ali, se apresentavam nomes como Luis Eça, Luis Carlos Vinhas e Sérgio Mendes, e cantoras como Dolores Duran, Sylvinha Telles e Leny Andrade, nos espetáculos produzidos pela dupla Miele & Bôscoli nas boates Bottle's, Bacará e Little Club.
Miele está à frente da revitalização desses lugares, que devem reabrir as portas até o fim deste ano, inteiramente reformados. Será devolvido ao Rio o Beco das Garrafas, que ganhou o nome porque os vizinhos jogavam garrafas das janelas, furiosos com o barulho dos boêmios. A acústica das casas agora será perfeita, garantem os empresários envolvidos na empreitada. Miéle aposta que vão retomar o brilho de antigamente, com shows e jam sessions. As bebidas também devem, naturalmente, evoluir, pois naquela época alguns desses lugares não tinham nem geladeira. Segundo Miele, gigantescas pedras de gelo eram trazidas na cabeça de funcionários portugueses que chegavam de bicicleta. Só assim podiam preparar os drinques preferidos: cuba-libre, hi-fi e o Samba em Berlim (cachaça com Coca-Cola). Chega de saudade! Voltando o Beco, o Rio reviverá, com ímpeto especial, a criação imortal de uma geração genial: a bossa nova.
Publicada na edição 190 (Agosto/2008) da Gula
Saindo do forno
- Toque de mestre
O chef português Marco Gomes e seu sonho: ver a culinária de seu país elevada à alta gastronomia - Prêmio Gula São Paulo 2008
Os restaurantes campeões da cidade nas mais diversas especialidades
Edições anteriores
Outras delícias
Conheça a galeria de imagens da revista VIVERBEM e eleja o projeto que mais combina com seu estilo

